domingo, 14 de junho de 2009

E as pessoas se tornam especiais

“Hoje, faz exatamente uma semana que começamos a gravar A Herança”. Ok? E daí? O que eu tenho a ver com isso? Bom, eu (autor desse texto) tenho muito a ver, até porque sou um dos diretores do filme. Mas, e você (caro leitor?). A Herança é um novo filme produzido por uma câmera digital! (por favor acreditem).
O fato é que, a frase citada linhas acima, poderia ser a mais normal possível se a essência dela fosse tão normal quanto. Hoje, domingo, faz exatamente uma semana em que fomos gravar em Domingos Martins, num hotel que deixa qualquer pessoa, amante de frio, amor, arquitetura e conforto, encantada. Digo isso porque eu me surpreendi com tudo o que vi e vivi naquele dia. Surpreendi-me mais ainda com a distância existente entre minha casa e o hotel. Como pode um lugar daquele estar tão perto de mim e eu nunca ter ouvido falar?
Também me surpreendi com as pessoas que foram comigo. Como são belas as pessoas que entraram na minha vida assim, como quem não querem nada. Pessoas engajadas, encantadas...Tudo foi lindo. Dias que, num dia repleto de problemas, você queria muito reviver.
O dia, por si só, já daria um filme. Making-of não resumiria nem um pouco o quão bom foi aquele danado dia. Nenhuma outra sinopse, relato ou vídeo demonstraria o quanto aquele dia foi bom, tanto na frente como atrás das câmeras. O conforto, a hospitalidade, o local...tudo contribuiu para transformar aquele dia de gravação simplesmente per-fei-to.
Mas continuo mais surpreso com as pessoas. Não paramos um só minuto. Não havia tempo algum para sentar, respirar e dizer num microfone: “Equipe, meia hora para uma pausa”. Tínhamos que gravar seqüências imensas de cenas num tempo recorde. Chegamos ao hotel de manhã e só saímos à noite, com um clima frio e trilha sonora regada à risos de diferentes tonalidades e volumes. Por conta desse tempo rigorosamente cronometrado, não havia um só minuto em que pudesse avaliar realmente como foi o papel de cada um naquela ocasião. Mas pude captar, sim, a essência de tudo. Captei todo o esforço, toda a força que unimos naquele dia por uma coisa tão simples. Fiquei imensamente satisfeito com a atuação das pessoas que se ofereciam para tudo, queriam ajudar, me ajudavam em diversas tarefas. Comecei a pensar que aquilo que começou como “brincadeira” estava se tornando (aos meus olhos e aos olhos dos demais) uma coisa mais séria e engajada.
O clima dentro da van foi ótimo. Comemorávamos as cenas, comentávamos os fatos, os casos e acasos. Na saída do hotel ganhamos caquis como cortesia do hotel que nos deu umas caixas repletas da fruta. No caminho, já com toda as bolsas com figurinos e outros acessórios na parte de trás (todas enfurnadas nos últimos bancos), resolvemos colocar as caixas com a fruta em cima dos bancos também. Papo vai e papo vem. Ferio vai e freio vem. Vimos os caquis rolando van à baixo. Já era noite, tudo escuro. Não havia a menor possibilidade de se juntar todos aqueles caquis novamente. Risadas. Chegamos à cidadezinha, também hospitaleira, também rica na sua arquitetura, mas que deixa a desejar por centenas razões que não merecem ser apresentadas aqui. Nos direcionamos à um restaurante onde, ao som de violino (que também fez parte das nossas gravações do hotel), comemos pizza e comentamos as cenas gravadas no hotel.
Que clima agradável, que saudade de rever e, principalmente, reviver aquele momento!Vontade imensa de ver logo essas pessoas trabalhando, se jogando para uma cena, batalhando para fazer e dar o seu melhor. Tudo e todos contribuindo para transformar o fictício em real, defeitos em efeitos, fazer brilhar. Batalhando para fazer bonito, deixar tudo lindo. Batalhando para mostrar serviço, mostrar o rosto, deixar valor. Batalhando para fazer valer a pena se entregando com amor. Batalhando para ganhar espaço, para fazer um pouco de tudo, fazer de tudo um pouco, fazer vida, fazer arte.

Pensamentos infantis

Muitas vezes acho que sou estranho. Estranho não seria a palavra ideal. Mas, sim diferente. Isso! Eu me sentia diferente. Tudo era comigo! Tudo acontecia comigo! Ou melhor, na-da acontecia comigo. Desde criança eu nunca soube ou consegui levantar uma pipa. Inúmeras eram as rabiolas presas nos galhos das árvores, ou então dos arranhões e machucados no joelho por sair correndo com a pipa no ar, com a linha em punho. Eu não olhava para frente, só fixava meus olhos àquela “obra de arte” , àquela arquitetura indecifrável feita de bambu e papel de seda. Quantas vezes caí, quantas vezes chorei, cantei.
Gosto muito de lembrar dessa fase da minha vida. Adoro e gostei muito da minha infância. Aliás, acho que ainda vivo ela. Não me considero uma “criança-grande”, mas, se pensarmos bem, vamos notar que somos as mesmas pessoas, com as mesmas vontades, mesmas manias (mesmo inconscientes). Os rostos (é claro) mudam, aliás, devem mudar. Mas os nossos medos infantis, as taras, os desejos, creio eu, que continuam. Certas pessoas mudam radicalmente. Mas eu, particularmente, sou daqueles que carrega bastante coisa do passado.Eu consigo lembrar perfeitamente das noites que passava desenhando, pintando não-sei-o-que. E é somente quando adultos é que percebemos o quão bom era aquela arte indecifrável. Aquela vontade absurda de rasgar papel, de pintar o nada, fazer rabiscos (muitas vezes na parede), sonhar, chorar, sentir fome, gritar, deixar as coisas caírem e fazer cara de santo, cara de “meu Deus, o que eu fiz?”, cara de medo, vontade de sumir. E a única expressão que conseguimos esboçar é de: “Desculpa, foi sem querer”.
Como eram magníficos os pensamentos infantis. Tínhamos medo de tantas coisas, medo de lençóis, de geladeira, de luz, sombra, calor e frio. Tínhamos medo dos personagens, dos barulhos que o vazio existencial provocava, dos ventos estranhos, da solidão, da televisão, do rádio...
Concordo que de veras muita coisa mudou. Não tenho tantos medos. Mas continuo sendo a pessoa mais desastrada desse mundo! Consigo derrubar coisas e tropeçar em coisas invisíveis com uma facilidade absurda. Tenho medo de microfone, de cachorro e muito, mas muito medo de errar, fracassar e não realizar coisas na vida que, para mim, são essenciais. Casar, ter filhos, ter cachorros (sim, ainda tenho medo deles, mas vivo em contradição), comer pipocas queimadas feitas pelo seu amor, amar e ter uma casa linda no campo, casa de madeira, sem luxo e com muita simplicidade. Todos nós temos sonhos.
Quando criança tinha muitos sonhos, mas não sabia defini-los. Eu tentava alcançá-los do meu jeito. Cresci cercado de papéis e idéias pra lá de malucas. Aos 6 anos eu cismava em criar uma casa numa árvore do quintal que não passava de dois metros de altura. Tolice? Talvez. Os sonhos não eram inatingíveis. A gente só imaginava demais. E sinto muita falta dessas imaginações antigas, infantis. Confesso que, de vez em quando surgem imaginações advindas dela. Muitas vezes tenho umas idéias absurdas, dessas que não cabem no padrão de “normalidade” do mundo moderno. E eu não parava. Não sosseguei enquanto não vi, preso à arvore, um balanço, feito com maestria pelo avô. O balanço só tinha uma corda e um toco de madeira. A corda era amarrada bem no centro do toco que ficava de forma horizontal. Bastava enfiar as pernas entre a corda e pegar impulso. Que diversão!
Saudades, quantas saudades. Saudades daquelas imaginações que, ao passar do tempo, foram ganhando formas, contornos. Foram virando palavras, se desdobrando em frases, textos...Eu comecei a escrever!
O que verdadeiramente me encanta em crianças é a imaginação e a vontade que possuem de criar. Afirmo que fui uma criança bem criadora. Cresci fascinado por Natal, épocas festivas, épocas simbólicas, decorativas. Adorava planejar as festas, criar as coisas, pintar, escrever...Já brinquei muito também, chorei bastante, dormi muito e acordei sem ter caminho algum. Mas o que realmente movia (e move) a minha capacidade criadora é a gana de dominar o mundo, dominar meus pensamentos, dominar situações, dominar personagens e uma fábula inteira através de coisas tão simples como o ato simbólico e humanamente instintivo de tocar num lápis ou teclado e deixar suas mãos e dedos dançarem nessa maravilhosa sinfonia da escrita.

sábado, 13 de junho de 2009

Cinema e quarto

Faltam exatamente quatro minutos para a meia noite do dia 22 para o dia 23 de maio. O Laptop toca uma música que me traz uma paz incalculável. Mas é impossível sair dessa página de “Word” para simplesmente ver quem a canta e qual o nome da tal música. A madrugada parece que vai ser fria, coloco meias, mas deixo as pernas ao léu. Uso apenas um calção de futebol.
Pode parecer ridículo, mas to com vontade de relatar coisas minuciosas, espécie de diário. Mas o que há de tão errado nisso? Precisamos, muitas vezes, prestar atenção em detalhes, cenas quase que irreparáveis. Anotar também é importante, relatar, escrever é tão bom... faz a gente se comunicar (muitas vezes) com nós mesmos. Esse meu pensamento me fez lembrar um dos recentes livros que leio para o vestibular. “Paraísos Artificiais”. Dois dos contos do tal livro enfocam o ato de escrever como saída para a “imobilidade” das personagens. Não posso lembrar em vestibular porque isso ás vezes me causa pânico. Pânico, na verdade, não seria a palavra mais adequada. Talvez medo. Medo de perder as pessoas, medo do vago, do “alguma coisa está faltando aqui”.
Os livros continuam na mesa de jantar. A tolerância de vovó com a mesa repleta de pilhas com os mais variados tipos de livros e apostilas me encanta. Há papéis pregados pelo guarda-roupa, perto da cama, inclusive no banheiro! Terminei os assuntos de História Geral e Brasil, mas a insegurança é grande. Espero que eu termine Biologia assim que voltar do retiro de sábado e domingo. Quero, ainda, fazer bastantes revisões de história e biologia, além de revisar os conteúdos dos livros, pelo menos os resumos. A prova se aproxima. E eu não quero ficar pensando muito nisso. Penso que vai dar tudo certo.
Bom, cheguei agora pouco da casa da minha “nem” linda. Fomos à rua com a sua mãe, demos uma volta, fomos para sua casa, fizemos alguma coisa para comer e assistimos à um filme. Tava frio (e continua bastante), tive que enfiar minhas pernas descobertas no cobertor da Mariana. Ela me fazia carinhos, e eu sentia veemente seus toques, suas expressões singelas e delicadas, seu sorriso tão provocativo, tão infantil, tão belo, tão arte. Eu retribuía os carinhos, os toques...mas o filme estava me surpreendendo. A imagem, a história... incrível! Era o tipo de filme que eu ve-ne-ro. Mas não vou mentir: o filme me deixava aflito, ansioso, curioso, preocupado, com medo. Não pude deixar de ir correndo para o Google e pesquisar algo sobre o tal filme intitulado “O amigo oculto”.
Bom, o quarto continua desarrumado. Além dos papéis que estão no guarda-roupa e perto da cama, há uns papéis jogados junto à alguns cd’s na mesa do computador. A cadeira está repleta de roupas sujas e meias que às vezes uso para tirar a poeira da tela do computador. Ah! E também há a presença de uma mosca chata que insiste em me perturbar aqui na cama. Acho que ela quer entrar no texto também de alguma forma. Um dia ainda escrevo um artigo sobre a minha real relação com essas moscas...
Numa outra mesa (uma espécie de pequena estante) há um ventilador com tanta poeira que nem vale a pena ligá-lo (sim, até no frio insisto em ligar o ventilador).E, quanto a poeira, ela ficará lá durante um bom tempo. É triste criar coragem para limpar toda essa bagunça!
Acho bom eu deitar e esquecer esses “detalhes”. Acha difícil esquecer tanta bagunça e poeira? Nem tanto. Basta desligar o laptop e apagar a luz. ;)
Boa noite!

Criança com medo


Eu tenho muitas recordações do passado. Da escola, dos amigos, das festinhas e até das brigas. Os ensaios, os trabalhos, os professores! Tantas características, tantas lembranças que, se tivesse com bastante tempo acumulado, poderia descrever detalhadamente tudo o que acontecia naquelas manhãs antigas. Uns poucos amigos já estão trabalhando, já estão desvinculados à mim e, quando os encontro pelas ruas, nem sequer trocamos um cumprimento. Alguns se mudaram, mudaram de rumo, trajetória. Uns foram para o Rio, Minas ou para o céu. Alguns já são pais, mães de família. Uns com tantos rumos, outros sem nenhum caminho, nenhuma fava de esperança.
Há, sim, vontades de voltar no tempo. Vontades de reviver e não de mudar nada. Vontade de voltar a ser uma daquelas crianças que tinham medo do futuro. Achavam tudo incerto, tinham muitas dúvidas. Sim porque, naquela época eu tinha muitas dúvidas. Hoje, tenho uma infinidade delas. Milhões de perguntas relacionadas (quase sempre) à ele: O futuro.
Mas passei a me acostumar com a barata inércia das perguntas. Elas aparecem, depois são rapidamente dissolvidas, resolvidas, correspondidas e, finalmente, acabadas. Digo “rapidamente” porque o tempo passa tão rápido que o que o que é futuro já é presente e o presente se torna passado tão rápido quanto. Por isso acho as perguntas relacionadas à futuro tão efêmeras, passageiras e tão insignificantes. Porém, entristeço-me ao lembrar que, mesmo sendo insignificantes, não podemos desprezar sua incômoda existência.

Árvore

E eu fiquei a imaginar uma árvore, arvore grande, objeto pesado, objeto precioso que a natureza gerou, que se transforma e se pesa com o passar do tempo. Fiquei a imaginar suas ondas, suas formas, seus cantos, seus gritos, gemidos e medos profundos. Fiquei a imaginar traços, rabiscos, desenhos, animais e seres inanimados num constante sobe e desce.
E as formigas? Quantos encontros, quantas despedidas, quanto desce e sobe! E eu me imagino bem em baixo dessa árvore, que me ampara de um sol escaldante, que me rende um vento que se torna meu lençol invisível, que faz apagar aquele som horrendo que vem dos centros, das massas, dos barulhos maciços e maquinados.
Fico ali só, correndo das pessoas e tentando evitar uma solidão sólida. Tentando evitar que eu fique sozinho, sozinho apenas: sem meus pensamentos, sem minhas dúvidas, sem a presença verde, sem o barulho das águas, sem os animais, sem os seres e o tempo.

sábado, 25 de abril de 2009

Promessa

Rain em inglês, lluvia em espanhol, regen em alemão, pluie em francês ou pioggia em italiano..O fato é que chuva, em português, é a mesma em qualquer lugar e sempre traz consigo...(suspense).. água!. Porém, a queda dessa água pode ser entendia de várias formas, de diversas maneiras e trazer diversos significados. Desde que não seja ácida ou venha em grande abundância a ponto de causar alguma catástrofe natural, chuvas são sempre bem vindas. Há apenas uma pequena minoria que detesta chuva, frio e, inclusive sol! ( o querem na verdade hein?).
Num plano geral, uma rua. No detalhe, uma menina triste, pobre, chorando junto a um projeto de árvore (um galho seco, pode ser!), um carro passa, joga uma ou duas moedas, a menina olha triste, chora mais. De repente começa uma chuva, a menina chora ainda mais, pessoas correndo, guarda chuvas recém-abertos e a menina lá, sozinha com as moedas. Chuva, nesse caso, só vem completar o sentimento triste que emana na cena, só vem completar certa melancolia que a menina demonstra na cena (depende da atriz!).
Num plano geral um casal, dois anjos e (acreditem!) brigando. No detalhe os dois se olhando, discutindo...Um dos dois resolve parar, respirar e dizer: chega! No close, um beijo apaixonante, sem escrúpulos, sem medo, sem raiva...No plano geral..(adivinhem!) ela! A chuva! Que bênção! Que magia! Cena de prêmio hollywoodiano...(okay! Fui longe demais!). Mas chuva é assim! Pode ter diferentes significados e podemos entendê-la de várias formas. Outro dia caiu uma baita chuva a noite, chuva linda, chuva boa, chuva fria com tempo quente. Do outro lado sentiu-se a mesma vontade. Sair! (sim, sair!!!) Tomar banho de chuva!
Fui encontrar aquela que eu amo ns curvas das ruas esburacadas e mal planejadas do nosso pequeno e humilde bairro. Andei contra a água que descia violenta pelos cantos dos paralelepípedos. Encontrei insetos fugindo da água, vi pessoas correndo da água, correndo da chuva! Não somos de açúcar! Esperei, esperei. E ela apareceu depois. Um baita sorriso no rosto, aquele olhar inocente... Estava toda molhada, rosto pingando, pareciam lágrimas. Cabelos molhados, fios nos ombros...Continuamos na chuva, feito duas crianças alegres e fugidas de padrastos e madrastas perigosas, órfãos. Sem medo, sem tempo nenhum para respirar. Amamos-nos. Corremos pelas possas d’água, navegamos pelos barquinhos-de-papel imaginários e voamos baixo. Longe. Estávamos longe. Pensamentos perdidos, sentimentos parecidos. Água gélida! Um rato! Sandálias com lama, felicidade infinita, beijos e beijos. Água santa, água benta, água, simplesmente!
A vontade era de ficar ali o tempo todo. Que contradição! Que composição que se formara! Parecíamos loucos, parecíamos tontos, bêbados, mas, acima de tudo, inocentes. Não negamos nada, formamos nossa constelação sob a temperatura alta e baixa. Tudo ao mesmo tempo. Que bom era sentir aquela temperatura ‘meio-termo’, que bom sentir aquele beijo, aquele calor...

“Iemanjá..! Vem lavar a nossa fé”...


Foi a trilha. Foi a música. Que fé absoluta. Puta sentimento batia naquele momento! Os antigos medos se substituíram. Se antes era medo de arriscar, hoje era medo de perder. Perder pro tempo, pro futuro...Santa fé! A gente se abraçava e sentia forte uma vontade imensa de viver junto. Apenas dividindo momentos únicos com elementos naturais e santos que nos faziam viajar, iluminar caminhos. Era gostoso compartilhar esses e aqueles momentos com o barulho do mar, som de cachoeira, voz de anjos! Como era bom! Como é mágico!
Fantasia demais? Não, não. Era a fantasia real, fantasia de vida real, vida leal. Costumo sim transformar tudo em poesia, tudo em vídeo, cinema! E por que não considerar fantástico tudo aquilo? Expressões de felicidade, sentimento mútuo...isso sim é fantástico! Purpurina, efeitos sonoros, efeitos visuais, explosão de luz, chegada do homem à lua, descobrimento de fórmulas químicas, geométricas e medicinais (descul-pe-me), mas não há nada de fantástico nisso. Há, realmente, coisas mais fantásticas do que o simples fato de VI-VER? Viver tudo isso é fantástico! E o que seria de mim, pobre poeta e criador de fantasias, se não revivesse momentos através de palavras? O que seria de mim sem os pontos e vírgulas que separam momentos tristes de sentimentos sublimes e únicos? O que seria de mim sem as linhas que abrem caminho para as palavras, para as letras que se unem em busca de respostas claras para perguntas escuras e sóbrias? O que seria do Léo sem a energia que emana de mim e dissipa tudo o que penso, espalha todo o sentimento, borbulha segredos, transforma os medos, faz tudo virar poesia? O que seria de mim, hoje –amanhã e sempre – sem seu imenso amor? Sem esse seu amor diferente daquele que sentia antes por mim? O que seria de mim sem ter esse imenso sentimento de vitória, esse sentimento de missão cumprida? O que seria de mim se não tivesse conseguido te conquistar e mostrar tanto amor que estava guardado num pequeno baú grande repleto de coisas boas pra te oferecer, repleto de frases e palavras semi-prontas para te presentear?
E só foi preciso mais um tempo para eu perceber que ela, era bem parecida comigo. Quase que em tudo. Quanta simplicidade! Eu não tinha (nem tenho) vergonha de deixar lágrimas caírem quando elas bem querem. Não me permito controla-las quando querem fugir dos meus olhos, estancar os sentimentos, escorregar sobre meu rosto, curvar pelas espinhas e nutrir meus lábios. As deixo navegar, as deixo, simplesmente. Lágrimas, assim como chuva, podem ter inúmeros significados. Bons, ruins, ruins-bons, bons-ruins...No meu caso, elas aparecem a todo momento. Não me considero um emo, até porque não choro por motivos banais nem tam pouco choro à toa, sem ter motivo. Se choro, foi porque algo, uma cena, um objeto, uma pessoa ou foto, me chamou tremenda atenção e causou algo estranhamente esquisito naquele pequeno baú que fica guardado numa gaveta pequena do criado mudo do meu quarto chamado coração. Coisas tristes? Sim. Também chorava por coisas tristes. Choro ainda. Quando me machucam, me ofendem sem querer. Quando me olham sem ter exatamente o que dizer. Quando me negam, quando me prendem, prendem minhas palavras, minha arte, minha fantasia, ferem minha vivenda de ilusões.
Outro dia vi fotos antigas. Não tão antigas. Doce menina, pequena criança. Menina mineirinha, menina branquinha, menina-moça, menina-mulher. Entrei na foto e senti coisas tão boas que imediatamente minhas lágrimas saltaram dos meus olhos (acreditem, o mesmo está acontecendo agora). Aquelas fotos mostravam o quanto aquela menina representava e que sentimentos ela guardava no seu baú. Quanta coisa boa. Aquele olhar de susto, como se não tivesse compreendendo nada ao seu redor. Aquele olhar fugitivo, olhar bandido. Aquele sorriso meio escondido. Aquele cabelo amarrado, aquela expressão sem preocupação com o tempo, com a vida, com o vento que tirava os fios de cabelo do lugar. Sem preocupação com a imagem, com o “ridículo”, com o perfeito. Momentos se tornam perfeitos, muitas vezes, porque ninguém se preocupa com o ideal, com o pós, com o “depois”. Quando ninguém se preocupa como que vão falar, comentar, fofocar ou reparar, tudo fica lindo, quase perfeito. Nada é perfeito. Mas existe, sim, um perfeito particular. Um perfeito que completa, une, conjuga.

Quando se ama algo perfeito, se diz “perfeito aos seus olhos” ou “perfeito aos meus olhos”. Tudo parte de um ponto de vista. Questão de opinião (ou seria gosto?).

O fato é que me tornei um amante de chuva, vento e outros efeitos naturais que fazem uma cena valer mais que qualquer coisa. Tornei-me amante de mim mesmo, amante das minhas artes, dos meus gostos, dos meus sonhos. Sabe por quê? Porque quando a gente divide um sonho com alguém, ele continua sendo seu e, portanto, o ama incondicionalmente. Quando dividimos cenas, projetos, planos, idéias, arte, gosto e sentimentos, passamos à admirá-los de uma forma colossalmente linda, perfeita e, principalmente, humana e verdadeira. Quando se confia, se ama (e vice versa). Quando se ama e, principalmente se faz planos, tudo se cristaliza em promessas, promessas divinas, promessas de amor, de futuro, de fantasia, de alegria, felicidade infinita!
Eu faço promessas a todo instante e, quando se tem uma chuva do lado, caindo incessantemente, ou uma chuva em cima, banhando seu corpo é um momento lindamente natural e propício a pedidos e promessas. Momento de ligação natural entre céu e terra. Momento em que o gasoso se liga ao sólido pelo líquido. Momento em que esse líquido, água divina caída dos céus, entra em contato com a terra, trazendo, querendo ou não, informações e bênçãos. Momento exato para ter certeza de que a chuva é o fio que conduz a terra ao céu. E que isso aconteça sempre, que mais chuvas caiam, banhando sentimentos, humanizando pessoas, gerando mais e mais cenas lindas, planos e sonhos, mas, principalmente, efetivando promessas e desejos pequenos, simples e humildes.
Termino esse texto com uma frase linda, proferida por padre Fábio de Melo e que fala de chuva, sonho e Minas Gerais:


"Minas de amor, mineiros...laços tão verdadeiros, vida onde o sonho é real, terra de nome plural, Gerais das montanhas. Lugar que a fé escolheu pra ficar e a chuva só fez fecundar, minérios, mistérios da cor."

sábado, 21 de março de 2009

Dois em um!


Na minha fase adolescente, costumava sair pouco. Adorava (adoro) livros, televisão,.. ficar em casa para mim era primordial. Assistir filme, estudar e ficar inventando mil e umas coisas dentro de casa e ouvindo sermões e amores de minha avó eram as coisas que eu mais gostava de fazer quando tinha lá meus 13, 14, 15...anos!Não que eu seja tão velho - até porque muita gente acha que ainda tenho cara de 15 ! – mas é que, há uns anos atrás eu era o amigo-caseiro que ninguém queria ter. Tinha sim uns ou outros colegas, amigos sim, perseverantes, porém poucos.
Apesar das notas em provas serem boas, excelentes, enfim, tinha alguns amigos – colegas – movidos pelo interesse. Procuravam-me na hora das provas, me pediam ‘cola’... Eu tinha aqueles amigos ‘de rua’. Aqueles amigos que sempre querem fazer uma bagunça no logradouro, movimentar tudo, mover o mundo!
Apesar de tudo isso, eu ainda preferia ficar em casa muitas vezes. Quantos carnavais passei em casa...quantas viradas de ano, natal...! O lar para mim era um lugar sagrado – e ainda é. E isso foi se repetindo...repetindo... Podia estar em casa triste, mas era uma tristeza que eu gostava. Não me sentia bem em lugares públicos, exposto à tudo e à todos. Muitas vezes deixei o ‘público’ me esperando para falar no microfone, sumia de repente em festas, tinha pavor de me apresentar, me explicar...triste sina para uma pessoa que, hoje, quer ser jornalista.! E mesmo assim, quando era obrigado à ir a eventos grandes e recepções na casa de parentes – sim, até de parentes eu tenho vergonha e, assumo, até hoje sofro com isso – eu não via o momento único de chegar em casa. Eu podia não ter absolutamente nada para fazer no ‘querido lar’, mas adorava ficar lá. No meu canto, no meu mundo.
E eu podia estar no meu quarto, na sala ou em qualquer cômodo da casa... o barulho de rua, bagunça... não me incomodava. Até me fazia bem. Saber que não estou acordado sozinho e que havia movimento lá fora me fazia bem. Mas, que fique bem claro, era eles lá e eu aqui, divididos pela parede, entre janelas. Sozinho.
Eu até podia ter sofrido com isso. Poderia ter me tornado um menino incompreendido, ter depressão! Mas era aquilo que eu amava: Ficar sozinho, isolado. Não me faltava amor, não me faltava nada! Mas eu preferia ficar em casa! Era uma opção minha!
Tentei, inutilmente, freqüentar a rua de vez em quando, mas eu não via sentido ficar lá, sem nada para fazer. Sentar, comer, conversar com os amigos? E daí batia a solidão: cadê os amigos? As conversas?
Conheço uma pessoa que deve sofrer com isso. Muitas vezes quando o vejo na rua tomo um susto. Ela não sabe se comportar “em sociedade” e, na impossibilidade de ser natural, acaba simulando situações, falando como se fosse um outro personagem, faz ceninha, não sabe onde por a mão, fica sem jeito, tropeça, pede perdão às pessoas quando esbarra nelas (okay, isso se chama educação, beleza!), enfim...tentava fazer um ‘social’, tentava ser outra pessoa para, simplesmente agradar as outras pessoas. Escondia-se atrás de si mesmo. E eu o conhecia bem. Sabia que em casa ele era outra pessoa. Falava diferente, tinha outros tipos de movimento, era, simplesmente, ele!... Ainda bem que não cheguei à esse ponto. Assumia que não gostava de movimento e ponto. Não gostava de balada, rua... enfim!
Porém o tempo foi passando e, não sei como, mas fui, devagar, conhecendo outras pessoas, outros seres, outros lugares. Passei a ir na rua, ver gente, conversar normalmente. Assumo que, ainda sou muito atrapalhado, passo por umas situações constrangedoras, ás vezes. Sou tímido, mas muita gente não entende. Quem me conhece sabe que tenho dois lados e que ser tímido, faz parte de somente um deles.
Por incrível que pareça, essa herança da minha infância-adolescência eu vou carregar pra vida toda.Porém, quando estou num evento festivo ou num lugar dançante, começo a ‘me alegrar’ um pouco e me divertir muito. Daí, aqueles que conheciam o Léo caseiro, menino bobo e atrapalhado e que só tinha talento e nada mais, passavam a tomar um susto quando me viam lá: ‘alegre’, vivendo e levando a vida como qualquer outra pessoa ‘normal’.Prova viva foi quando, certa vez, conheci uma menina numa noite noite de forró (Eu? No forró? Que mudança!). Eu tava um pouco alegre, mas consegui me apresentar e ainda arrisquei perguntar o que ela ia fazer da vida (eu sei que isso era um pouco impróprio, mas minha sina (na falta de coisa melhor) perguntar o que as pessoas iam fazer no vestibular). A menina disse que faria jornalismo e eu, simplesmente gritei que também faria. E ainda perguntei:
___Está estudando?
___Muito!
___Eu não estou estudando nada!
___Pois é. Sua vaga será minha!
Pode ter sido brincadeira, mas o meu grau de alegria naquele momento diminuiu. Até porque eu estava bem triste com coisas relacionadas à vestibular. Eu podia estar na melhor escola do estado, mas naquela época não estava estudando direito, envolvido com outras coisas, outros assuntos, não estudava em casa!E isso me deixou meio “pra baixo” aquela noite. O fato é que ainda disse assim:
___Entra no meu blog!
___Com certeza!
___Te passo depois! - eu disse.
Bom, ela não devia ter posto nenhuma confiança em mim. Blog? Ela não devia acreditar que um ‘maluco’ como eu pudesse escrever alguma coisa. Ela ficava lá, com aquela cara de jornalista séria, num lugar barulhento.Pós forró, tratei de encontra-la na internet e enviar o link do blog. Depois de ter lido um ou outro texto, ela não acreditava que eu era o mesmo menino do ‘forró’. No mesmo instante conclui que existem duas pessoas em mim. Nem sempre temos que representar aquilo que seremos futuramente, num lugar onde aquilo que seremos futuramente é o que menos importa!
De fato, passei a me expressar melhor, ter visibilidade. Microfone? Bom, embora ainda o estranhe, passei a tê-lo como amigo. Falei de mais nos últimos dias... e ele me ajudou em alguns momentos, confesso. Meu problema (ou não) é que depois que passei a estar mais “em sociedade’ passei a notar várias ‘falhas no sistema’. Coisas que, para mim, são erros absurdos, muita ignorância em alguns, falta de ignorância de outros. Não generalizo, mas há, em qualquer sociedade que se viva, muita burocracia, muito preconceito, muito... muito...
Muitas vezes penso em fazer um flash-back nesse filme que é a minha vida. Voltar aos meus 14, 15 anos e rever à que sociedade pertenço, mas tendo consciência de que nenhuma sociedade é perfeita. Nem aquela que existe no nosso imaginário é completa: 100% feliz e saudável.
Mas confesso que, depois que passei a me relacionar mais, ter mais amigos, amigas e colegas, me tornei uma pessoa até mais criativa. Penso mais, tenho várias opiniões sobre determinado assunto. Ouço comentários sobre meu trabalho, críticas e elogios. Leque de amigos, rede de colegas! E isso vai ser e está sendo extremamente importante para mim. Para um ser humano que quer ser jornalista é extremamente importante tecer um bom diálogo, falar com todo tipo de pessoa, se infiltrar em ‘qualquer sociedade’, ouvir comentários, várias opiniões e esquecer da bolha do eu, do infinito particular que é tão necessário, mas que, em certos casos, deve ser esquecido para tornar o trabalho mais real (não que o infinito particular seja fictício), mas o torna mais abrangente, atinge outras camadas, agrada a maioria.E pra ser bem sucedido, hoje, é necessário atingir a maioria, ser maioria, ter a maioria a seu favor. É só ali: no meio do povo, no meio da sociedade e enfrentando todo e qualquer tipo de problema que se pode realizar um trabalho que os atinja de modo a causar frenesi e, por que não, indignação. E com o passar do tempo fui percebendo que aquela profissão surrealista era mesmo aquilo que eu queria para mim, era o meu início – até porque não penso em cursar somente jornalismo.
E o tempo que eu precisava para conhecer as pessoas, os olhares, um amor forte...eu ganhei com a reprovação no vestibular. Porém, quero deixar claro que ainda não conheço tudo. Não conheço todos os povos, todas as indignações, todos os costumes, regiões, países e municípios brasileiros e não-brasileiros. Não conheço o todo, a massa, o leite e a nata social brasileira. O que relato, são apenas pequenas experiências vivenciadas numa cidade do meio urbano-rural, do sul do Espírito Santo que, embora não queira, aparenta, sim, uma divisão de classes e costumes bem visível.
E tudo foi importante para mim. As experiências, o meu mundo fechado e infantil, minha herança, meu passado precioso. Tudo foi necessário para formar a pessoa pensante que sou, capaz de relatar tudo o que vê e sente. Meu passado, meu infinito particular que me fizera tão feliz, hoje se torna meu flash back preferido. Parte da minha história, parte de um outro eu.
Se dizem que eu mudei? Não! Nunca! Sou apenas o mesmo de sempre. O menino calado, que às vezes fala demais. O menino observador, que escreve demais. O menino sério, que se ‘alegra’ demais. O menino caseiro, que sai demais. O menino fechado, mas que ganha (ou perde) uma amizade fácil. O menino que chora, mas que brinca, sorri e faz loucuras como qualquer outra pessoa feliz. O menino magro, que come demais. O menino que anda e cai demais. O menino que clama, ora e canta demais. Esse menino, esse rapaz...
E ainda bem que comecei a fazer novas amizades, passei a sair. Imaginou se eu continuasse aquele menino caseiro – eu ainda sou muito, muito, muito caseiro! – o que teria acontecido comigo? Talvez eu perdesse todos aqueles amigos ‘de rua’, por que esses também passaram a se relacionar mais, talvez meu infinito particular fosse meu único amigo, talvez fosse a pessoa mais triste, mais infeliz, talvez passasse no vestibular, mas o que adiantaria? O que seria sem meus amigos? Sem essa sociedade que, apesar de tudo, me inspira e me faz ter espírito crítico? Aliás, agradeço muito à ela, pois é a responsável pelos meus textos, gera dúvidas, faz minha cabeça funcionar, maquinar, pipocar e quase estourar!
E fico assim, deixo assim, vivo assim. Fazendo o mundo, pessoas e sentimentos se tornarem fontes inesgotavelmente criativas para o meu conhecimento particular. Se tornarem experiência, se tornarem eu! Deixo que me envolvam, deixo que tomem conta de mim desde que eu, com qualquer potencialidade de observação, anote tudo, canalize tudo e forme a minha opinião.
E podem nos chamar de estranhos, insociáveis ou sociáveis até demais. Só não podemos deixar de sermos experiência, causarmos experiência. Ela sim, é e será a nossa herança eterna, aquilo que a gente vai levar para a vida toda.

"Aceita o conselho dos outros, mas nunca desista da tua própria opinião." (William Shakespeare)